sábado, 17 de outubro de 2020

As raízes da estética setecentista: uma querelle entre antigos e modernos?

 A proposta aqui é fazer um percurso ao longo do qual poderemos dispor alguns marcos de orientação, alguns vestígios - algumas vezes chegam a ser imperceptíveis em um primeiro momento -, de transformações histórico-culturais que marcam o século XVIII. 

"Os antigos chamavam-lhes 'hermes' e eram já estes que indicavam a estrada, permitindo assim um reconhecimento e desenhando o caminho. Os filósofos transformaram-nas em estradas mais certas, em 'método' que, perante a incerteza de uma encruzilhada, sabe sugerir o percurso a seguir sem se perder em atalhos sem saída". 

À semelhança do 'hermes' as leituras, para terem sentido, terão que serem interpretadas, o que revela o caráter hermenêutico que se dá com um diálogo mais amplo, aquele que constitui realmente o sentido de se reportar às tradições e com ciência de que só em pequena parte podemos recriar o sentido de uma época e das suas dinâmicas culturais. 

"(...) entre a revolução inglesa (1688) e a revolução francesa (1779) decorre um século, durante o qual irão surgir novos 'sujeitos' políticos, que serão depois os principais protagonistas de uma vida cultural que, cada vez mais afastada das cortes, procura construir círculos e movimentos independentes, não diretamente submetida à vontade soberana". 

A querelle entre antigos e modernos, entre razão e paixão, entre natureza e cultura, até as mais específicas entre sentimento e juízo, gênio e gosto, belo e sublime etc buscam manter o diálogo e a tolerância entre todos esses duos. É como se abrisse a possibilidade de reconhecimento da verdade mesmo em um adversário.  Havia a tentativa de uma terceira via, o "senso comum" capaz de estar presente na consciência do tecido social e no mundo da cultura. Toda a complexidade não poderia ser reduzida a um único olhar:

"A estética - e esta é a hipótese que acompanha toda a investigação - nasce precisamente da exigência mediadora de um contexto cultural no qual se procura colocar o mundo da contingência no plano da razão e simultaneamente, no qual valores absolutos como o da beleza são relacionados com faculdades subjetivas como o justo, e o bom senso do senso comum. Não é, certamente, um projecto, mas uma vontade filosófica que tende a construir horizontes onde possam confrontar-se diferentes experiências e visões do mundo".

Ao abrir a investigação acerca das raízes da estética do século XVIII, é preciso inferir três elementos que definem suas potencialidades. Em primeiro lugar i) a tradição filosófica: a reflexão sobre temas estético-artístico nasce, sem dúvida, nas articulações de um contexto filosófico, entre as questões metafísicas e metodológicas debatidas desde o século XVII, entre os novos problemas da paixão, da sensibilidade e do sentimento. Na posição central está o debate entre os antigos e os modernos, é neste seio que se instala e ordena aquela linguagem da crítica que caracterizará todo o século XVIII. Em outras palavras, os horizontes relativos às poéticas, à retórica, à oratória (disciplinas fundamentais no plano da cultura barroca) incidem sobre os temas filosóficos setecentistas, dirigem os problemas que darão origem à estética como uma disciplina autônoma, irredutível às suas componentes constitutivas. Mas são sobretudo Descartes e Locke que virão a constituir os pontos de referência primários:

"Descartes procura compreender, com o máximo de clareza e distinção possível, os mecanismos das paixões, a fim de as limitar e de controlar as suas potencialidades perturbadoras. A tentativa cartesiana alinha-se em duas direções: estabelecer uma 'física das paixões, na qual tudo se reconduz a espaço e movimento' e instalar 'uma lógica das paixões, na qual se enunciam por meio de ideias claras e distintas os juízos obscuramente implicados no funcionamento da afectividade. Aqui já está, extremamente resumida, a via futura da estética: por um lado, atenção voltada às dinâmicas do sensível, por outro, a vontade de 'o racionalizar', de o reconduzir às regras de representação e do juízo".

Não será difícil distinguir a primeira exigência de uma atitude que está no centro da filosofia de Leibniz: é possível estabelecer como objeto de uma reflexão analítica não apenas o que é em si claro e distinto, mas também o obscuro, o confuso, tudo que de alguma maneira escapa aos domínios da lógica ou daquilo que pode ser submetido à lógica. Em todo caso, é a experiência sensível que está no centro do debate filosófico e constitui o núcleo com o qual se faz o diálogo da clareza das idéias e as possibilidades da razão. É possivel compreender como os pontos de vistas dos antigos e dos modernos eram relativamente intercomunicáveis no interior de um debate entre ciência e filosofia confluindo na reflexão sobre a arte:

"O século XVIII assume e desenvolve essas posições, integra-as nas novas dimensões filosóficas, constrói planos cognitivos mais variados para a arte e para o belo, amplia a esfera das faculdades subjetivas, sugere novas divisões do saber: mas tudo isso no âmbito de um espírito de mediação que perpassa na querelle desde as suas origens. Espírito de mediação e de equilíbrio que acolhe, no entanto, estímulos diferenciados: por um lado, impulsos que o conduzem para além dos seus limites, em direção a diferenças irredtíveis (ultrapassando então os horizontes cartesianos e as fronteiras do classicismo); por outro, e é este o caso relevante da filosofia alemã, impulsos no sentido de 'dirigir' a própria mediação, criando para isso os oportunos 'análogos' da razão e inserindo os resultados num ponto de vista sistemático, que vai ao encontro da tendência leibniziana para a posse de um conhecimento claro e distinto, mesmo daquilo que é obscuro, em virtude de um princípio de perfeição e harmonia que por si só já funciona segundo critérios análogos".

Cresce simplesmente a consciência, mais uma vez testemunhada pelo pensamento de Leibniz, de que os pontos de vista sobre o real não podem ser unívocos e que se abre um número infinito de olhares diversos que buscam exprimir o sentido qualitativo das coisas.