Ao nos reportamos à experiência estética tradicional, e consideramos as contribuições de pensadores como Nietzsche e Heidegger, como procuramos fazer, podemos identificar algo diferente na experiência estética contemporânea: a estetização-desrealização não pode vir senão como o oposto à “realidade”, àquela da experiência moderna. O que pode ser compreendido como “realidade” hoje é a estetização. Isso significa inferir que alguém pode sentir esta “desrealização” como uma perda. Sobre isso, Vattimo esclarece:
Na estetização generalizada do mundo midiático sentimos a desrealização como uma perda apenas porque nisso desaparecem as distinções, a dramaticidade das escolhas, as contraposições entre afirmação e negação, a possibilidade de engajar-se em juízo. Mas isto ocorre apenas porque, em um sentido bastante compreensível, a estetização de que se fala tanto não é completa: a esteticidade massificada que cobre como um grande véu rosado o mundo das mercadorias, das informações domesticadas, do ‘reclame do existente’, como dizia Adorno, é ainda modelada pela ‘retondità conciliata’ que caracteriza a beleza clássica na estética de Hegel. Com a diferença que Hegel, com alguma boa razão, via esta quieta perfeição da forma como um momento “irremediavelmente” superado da vida do espírito, enquanto a esteticidade do mundo midiático a impõe como ponto de chegada definitivo1.
Uma vez que nos reportamos à reflexão estética sobre as artes entre Oitocentos e Novecentos – vale lembrar, as artes de vanguarda - recordaremos que havia este aspecto conflitante, então porque agora na estetização do mundo midiático isto não ocorre e insistimos no que Vattimo chama “concepção clássica da esteticidade”? “Porque, no cinema e nas artes mais populares há pouca vanguarda e triunfa, pelo contrário, o final feliz?2” Vattimo responde:
Não creio que o triunfo do final feliz – que sempre foi o objetivo polêmico predileto das teorias de vanguarda – seja negado nas artes de massa de hoje pela onda de violência que invade as telas do cinema e da televisão. Trata-se, como sempre, de espetáculos de tipo ‘gastronômico’, que no mais não dão lugar a qualquer experiência realmente conflituosa no espectador; de fato, pelo contrário precisamente traços extremos demonstram das características do ‘inofensivo’ entretenimento3.
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1 VATTIMO, G. I limite della derealizzazione, pp.112-113.: “Nella estetizzazione generalizzata del mondo mediatico sentiamo la derealizzazione come una perdita solo perché in esso scompaiono le distinzioni, la drammaticità delle scelte, la contrapposizione tra effermazione e negazione, la possibilità di impegnarsi in un giudizio. Ma questo accade solo perchè, in un senso abbastanza comprensibile, l’estetizzazione di cui si parla tanto com è completa: l’esteticità massificata che copre come un grande velo rosato il mondo delle merci, delle informazioni addomesticate, della ‘réclame dell’esistente’ come diceva Adorno, è ancora modellata sulla rotondità conciliata che contraddistingue la beleza clássica nell’estetica di Hegel. Con la differenza che Hegel, com qualche buona ragione, vedeva questa quieta perfezione della forma come un momento irrimediabilmente ‘superato’ della vita dello spirito; mentre l’esteticità del mondo mediatico la impone come punto d’arrivo definitivo”.
2 Cf. VATTIMO, G. I limite della derealizzazione, p. 113.
3 VATTIMO, G. Ibidem.: “Non credo che il trionfo del lieto fine – che è sempre stato l’obiettivo polemico prediletto dei teorici dell’avanguardia – sia smentito nelle arti di massa di oggi dall’ondata di violenza che invade gli schermi del cinema e della televisiose. Si trata pur sempre di spettacoli di tipo ‘gastronomico’, che per lo più non danno luogo ad alcuna esperienza davvero conflittuale nello spettatore; anzi próprio i loro tratti estremi ne dimostrano il carattere di ‘innocuo’ intrattenimento”.