quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Bergson e o riso.

"Nem todos podemos ser filósofos e embrenharmo-nos na experiência metafísica da duração, mas todos podemos rir. Bergson é também autor de um pequeno livro intitulado Le rise. Essai sur la signification du comique, onde traça as características de uma espécie de experiência estética menor, ligada à comicidade. E elas são essencialmente três: vitalidade, insensibilidade e sociabilidade.
Para Bergson, o riso parece estar estreitamente ligado à vida, ou melhor, à vida humana, porque nem um objeto inanimado nem um animal fazem rir, a não ser pelas suas semelhanças com o ser humano. Já Kant havia observado que o riso favorece o sentimento de saúde através do reequilíbrio das forças vitais e definira-o como um afecto que tem origem na imperativa tranformação em nada da tensão de uma expectativa. Para Bergson, a relação entre o riso e a vida é muito mais substancial: o cômico é um regresso da vida a si mesma. Por vezes, efectivamente, a vida esquece-se de si, desliza para o hábito, para a repetição, para o mecanismo, perdendo assim a sua mobilidade e a sua plasticidade: o riso é correção e remédio para este esquecimento. Aquilo que faz rir é a descoberta da rigidez e do funcionamento automático lá onde se espera flexibilidade e tensão finalística: o exemplo da marioneta é o mais simples e óbvio, mas Bergson reconduz a este mesmo dispositivo um conjunto de situações e acontecimentos cômicos. O fenômeno da reificação, que é a redução da pessoa a coisa, constitui a essência da comicidade: em suma, para Bergson os contrários do impulso vital, isto é, a exterioridade, a repetição, a coisificação são cômicos, fazem rir!"

PERNIOLA, Mario. A estética do século XX. Trad. br. Teresa Antunes Cardoso. Lisboa: Editora Estampa, 1998.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Estetização – desrealização: uma reflexão de Gianni Vattimo.

Ao nos reportamos à experiência estética tradicional, e consideramos as contribuições de pensadores como Nietzsche e Heidegger, como procuramos fazer, podemos identificar algo diferente na experiência estética contemporânea: a estetização-desrealização não pode vir senão como o oposto à “realidade”, àquela da experiência moderna. O que pode ser compreendido como “realidade” hoje é a estetização. Isso significa inferir que alguém pode sentir esta “desrealização” como uma perda. Sobre isso, Vattimo esclarece:

Na estetização generalizada do mundo midiático sentimos a desrealização como uma perda apenas porque nisso desaparecem as distinções, a dramaticidade das escolhas, as contraposições entre afirmação e negação, a possibilidade de engajar-se em juízo. Mas isto ocorre apenas porque, em um sentido bastante compreensível, a estetização de que se fala tanto não é completa: a esteticidade massificada que cobre como um grande véu rosado o mundo das mercadorias, das informações domesticadas, do ‘reclame do existente’, como dizia Adorno, é ainda modelada pela ‘retondità conciliata’ que caracteriza a beleza clássica na estética de Hegel. Com a diferença que Hegel, com alguma boa razão, via esta quieta perfeição da forma como um momento “irremediavelmente” superado da vida do espírito, enquanto a esteticidade do mundo midiático a impõe como ponto de chegada definitivo1.

Uma vez que nos reportamos à reflexão estética sobre as artes entre Oitocentos e Novecentos – vale lembrar, as artes de vanguarda - recordaremos que havia este aspecto conflitante, então porque agora na estetização do mundo midiático isto não ocorre e insistimos no que Vattimo chama “concepção clássica da esteticidade”? “Porque, no cinema e nas artes mais populares há pouca vanguarda e triunfa, pelo contrário, o final feliz?2” Vattimo responde:

Não creio que o triunfo do final feliz – que sempre foi o objetivo polêmico predileto das teorias de vanguarda – seja negado nas artes de massa de hoje pela onda de violência que invade as telas do cinema e da televisão. Trata-se, como sempre, de espetáculos de tipo ‘gastronômico’, que no mais não dão lugar a qualquer experiência realmente conflituosa no espectador; de fato, pelo contrário precisamente traços extremos demonstram das características do ‘inofensivo’ entretenimento3.

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1 VATTIMO, G. I limite della derealizzazione, pp.112-113.: “Nella estetizzazione generalizzata del mondo mediatico sentiamo la derealizzazione come una perdita solo perché in esso scompaiono le distinzioni, la drammaticità delle scelte, la contrapposizione tra effermazione e negazione, la possibilità di impegnarsi in un giudizio. Ma questo accade solo perchè, in un senso abbastanza comprensibile, l’estetizzazione di cui si parla tanto com è completa: l’esteticità massificata che copre come un grande velo rosato il mondo delle merci, delle informazioni addomesticate, della ‘réclame dell’esistente’ come diceva Adorno, è ancora modellata sulla rotondità conciliata che contraddistingue la beleza clássica nell’estetica di Hegel. Con la differenza che Hegel, com qualche buona ragione, vedeva questa quieta perfezione della forma come un momento irrimediabilmente ‘superato’ della vita dello spirito; mentre l’esteticità del mondo mediatico la impone come punto d’arrivo definitivo”.

2 Cf. VATTIMO, G. I limite della derealizzazione, p. 113.

3 VATTIMO, G. Ibidem.: “Non credo che il trionfo del lieto fine – che è sempre stato l’obiettivo polemico prediletto dei teorici dell’avanguardia – sia smentito nelle arti di massa di oggi dall’ondata di violenza che invade gli schermi del cinema e della televisiose. Si trata pur sempre di spettacoli di tipo ‘gastronomico’, che per lo più non danno luogo ad alcuna esperienza davvero conflittuale nello spettatore; anzi próprio i loro tratti estremi ne dimostrano il carattere di ‘innocuo’ intrattenimento”.

domingo, 17 de julho de 2011

Estetismo, estetização.

Na busca de compreensão do fenômeno da estetização, Paulo D'Ângelo identifica a presença desse fenômeno desde espaços da cidade até os produtos do consumo: "Valor de signos (função comunicativa, aumento do imperativo da imagem, publicidade e confecção), na nossa imagem a presença cada vez maior da moda e do aspecto do corpo"

papéis velhos.

jogando papeis fora, encontrei algumas anotações de autores que vi ao longo da disciplina de estética na graduação. como vou passar um tempo longe da academia - resgatarei com algumas leves modificações, alguma coisa desse material.
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relembrar é viver.

O caráter filosófico da estética: uma reflexão de Luigi Pareyson.

Na busca por uma definição do que compreende com o termo “estético”, diante da multiplicidade e “por vezes, confusão de significados”, Pareyson argumenta sobre a que concerne o papel do filósofo/estudante de estética:

“O filósofo que pretenda legislar em campo artístico ou que deduza, artificialmente, uma estética de um sistema filosófico preestabelecido, ou que, em qualquer caso, proceda sem considerar a experiência estética, torna-se incapaz de explicar esta última e sua reflexão cessa de ser filosofia para reduzir-se a moro jogo verbal. Em primeiro lugar, a reflexão filosófica é puramente especulativa e não normativa, isto é, dirige-se a definir conceitos e não a estabelecer normas [...] seja porque a estética não é uma ‘parte’da filosofia, mas a filosofia inteira enquanto empenhada em refletir sobre os problemas da beleza e da arte, de modo que uma estética não seria tal se, ao enfrentar tais problemas, implicitamente também não enfrentasse todos os outros problemas da filosofia.

Em seguida Pareyson argumenta sobre o papel do artista dentro do que ele apresenta como universo estético:

“Finalmente, o trabalho dos artistas, críticos, historiadores e teorizadores é essencial para o filósofo da arte, em primeiro lugar, porque oferece ao estético o âmbito de experiência dentro do qual ele deve exercitar sua própria reflexão, o ponto de partida de sua meditação, o lugar onde pode testar a validade de suas teorias, do mesmo modo como as observações de laboratório servem de objeto de reflexão para o físico e de verificação de seu pensamento; [...] porque aqueles, centros conscientes de experiência estética, encontram-se nas melhores condições para dar um contributo ao pensamento estético, sendo o seu um testemunho direto e vivo”.

Luigi Pareyson, na obra “Os problemas da estética”.