"Nem todos podemos ser filósofos e embrenharmo-nos na experiência metafísica da duração, mas todos podemos rir. Bergson é também autor de um pequeno livro intitulado Le rise. Essai sur la signification du comique, onde traça as características de uma espécie de experiência estética menor, ligada à comicidade. E elas são essencialmente três: vitalidade, insensibilidade e sociabilidade.
Para Bergson, o riso parece estar estreitamente ligado à vida, ou melhor, à vida humana, porque nem um objeto inanimado nem um animal fazem rir, a não ser pelas suas semelhanças com o ser humano. Já Kant havia observado que o riso favorece o sentimento de saúde através do reequilíbrio das forças vitais e definira-o como um afecto que tem origem na imperativa tranformação em nada da tensão de uma expectativa. Para Bergson, a relação entre o riso e a vida é muito mais substancial: o cômico é um regresso da vida a si mesma. Por vezes, efectivamente, a vida esquece-se de si, desliza para o hábito, para a repetição, para o mecanismo, perdendo assim a sua mobilidade e a sua plasticidade: o riso é correção e remédio para este esquecimento. Aquilo que faz rir é a descoberta da rigidez e do funcionamento automático lá onde se espera flexibilidade e tensão finalística: o exemplo da marioneta é o mais simples e óbvio, mas Bergson reconduz a este mesmo dispositivo um conjunto de situações e acontecimentos cômicos. O fenômeno da reificação, que é a redução da pessoa a coisa, constitui a essência da comicidade: em suma, para Bergson os contrários do impulso vital, isto é, a exterioridade, a repetição, a coisificação são cômicos, fazem rir!"
PERNIOLA, Mario. A estética do século XX. Trad. br. Teresa Antunes Cardoso. Lisboa: Editora Estampa, 1998.
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