quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A estética do século XVIII: uma introdução.

 Farei agora uma excursão sobre a estética do século XVIII. Utilizarei como base teórica dos argumentos aqui expostos a obra de mesmo título do pensador italiano Elio Franzini. Pretender deliear o desenvolvimento essencial da estética do século XVIII é mostrar que os processos clássicos, tanto de análise como de síntese, são ambos inadequados e necessários. É explicitar um paradoxo - ou paradigma? - num contexto em que muitos autores se perdem na infinidade de suas análises, e em consonância com o próprio espírito do século XVIII - numa época em que o indivíduo detém um papel central - iniciamos este percurso. 

Para sair da dificuldade e sem tentar buscar uma síntese facilitada e inadequada, lembremo-nos da fórmula leibniziana com que o conceito de "beleza", "(...) isto é, a unidade na variedade, pode ser utilizada precisamente para compreender a duplicidade dos seus percursos teóricos, estabelecendo aqui a fundação da estética, que só neste século define tanto o próprio nome (cunhado por Baumgarten em 1735) como os seus horizontes temáticos". 

No plano da filosofia, é preciso considerar uma rede comunicativa, um excepcional intercâmbio entre os homens europeus para disputas de pensamento. "Assim, por exemplo, na Itália, dominam as tradições poético-retóricas, na Alemanha prevalece uma instância cognoscitiva radicada em Leibniz, na Inglaterra platonismo e empirismo combatem entre si, em França os antigos e os modernos levam a cabo uma disputa bem mais violenta do que nos outros países europeus".

"Ao expormos os problemas essenciais que surgem neste horizonte, será preciso evitar o recurso perverso a 'antecipações', que muitas vezes insere histórias e teorias em (demasiado) fáceis e banalizadores finalismos. No entanto, sem que isso nos torne perversos, é impossível deixar de sublinhar que o século xviii - precisamente enquanto mostra o nascimento e os primeiros desenvolvimentos da estética moderna, as suas incertezas originais entre a doutrina da sensibilidade e da receptividade do gosto - abre numerosos problemas quer de identidade quer de definição categorial e conceptual, com que ainda hoje se debate a estética filosófica". É preciso conviver: rigor filosófico e perspectivas retóricas, questões antropológicas e poéticas artísticas. A síntese nunca podera ser imediata nem apriorística.

Alguns pensadores sugerem na identificação da estética deste século um "iluminismo fanático", vendo nela um triunfo acrítico da razão. "A estética demonstra, pelo contrário, precisamente a complexidade do período: a par da razão (que, aliás, domina de modo bem mais relevante no século anterior) temos a obscuridade e a ambiguidade da sensação, a indiscrição das paixões e o espectro do excesso, em todo o caso, o olhar sobre uma natureza que recusa um único rosto, uma única expressão, um único método. Com isso não se pretende afirmar que o século xviii, mesmo na estética, não conhece a razão como instância metodológica e ordenadora - pelo contrário, ela vive em numerosas tradições, radicadas em Descartes, Melebranche, Leibniz ou Locke. Mas esta razão nunca instaura um domínio absoluto; ela é penetrada de um arguto wit e sabe que tem de conviver com uma natureza que tem aspectos selvagens, animais, obscuros - excedentes e indiscretos, potencialmente perigosos para a sociedade e a vida individual, e só autenticamente controláveis a partir da compreensão de seus fios essenciais, de suas particularidades funcionais, dos limites que se impõem ao negativo, à paixão, à força por vezes explosiva do eros. Compreender a estética do século xviii significa também penetrar nas 'razões' das suas múltiplas manifestações, que enfrentam de modo dinâmico as diferentes expressões da natureza e da razão, da sensibilidade e do intelecto". 

"A estética deste século não tem, portanto, uma definição unívoca, nem um pai reconhecido, nem uma mítica mãe geradora: está aqui presente a crítica do gosto, o horizonte poético das artes, a estrutura gnosiológica de Baumgarten, a fantasia de Vico, a lúcida visão transcendental de Kant, bem como as reflexões particulares dos artistas, dos críticos, dos místicos ou dos poetas. A estética é o senso comum deste diálogo dinâmico e incessante: é nele que se verão em acção as questões do sentimento, do prazer, da beleza, da forma, do infinito, que se poderão captar as qualidades das artes, os limites da percepção, o temor perante a obscura grandeza da natureza, as interrogações sobre o amor e a vida. A viagem entre 'regularidade' e 'irregularidade', que no século xviii se realiza entre as metafísicas da beleza e as relatividades do gosto, mostrará, nos planos da filosofia e da arte, as oscilações entre razão e paixão".

domingo, 13 de setembro de 2020

A experiência estética não se reduz apenas à experiência artística: uma introdução a Gianni Vattimo.

 No contexto da modernidade nós temos de um lado uma orientação baumgarteriana, com a estética como teoria da sensibilidade e do outro, a dimensão da filosofia da arte. A pergunta pelo estatuto da estética como saber particular não poderá ser respondida. O modo tradicional como a estética determinou certas disposições relativas ao sujeito, nesse modo de se postular, é preciso fazer questionamento. O mundo contemporâneo não é mais o mesmo em que a estética se constituiu. Ela não pode mais se manter na forma como originalmente na tradição se colocou. Um autor italiano como Gianni Vattimo, por exemplo, em obras como "O fim da modernidade" e na "Sociedade transparente" constata que a estética tradicional é incapaz de compreender a experiência estética nos rumos tomados nos séculos XX e XXI. Não existe esse lugar específico da arte que foi reconhecido na experiência estética tradicional. Existe hoje  um espaço mais amplo da experiência estética que exige um outro modo de ligar com essas novas problematizações. 

Não é algo apenas de decisão filosófica ou científica , como se decorresse de uma disposição individual de um autor com sua proposta. É antes de qualquer coisa uma transformação na experiência estética, uma transformação cultural no sentido mais amplo. Por exemplo: como as novas formas de tecnologia vieram influir no campo da experiência estética? O que está em questão não é apenas pensar a arte mas pensar estilos de vida, o modo de vida moderno e o cotidiano dessas mudanças, as transformações que um processo de modernização pode trazer no modo como as pessoas se vestem, falam, convivem, se relacionam, se alimentam etc. 

A estética proposta por Gianni Vattimo não se põe como estatuto epistêmico. Ele busca romper com esses estatutos e pensar as questões no campo da experiência estética como experiência cultural mais ampla. Nós temos fenômenos culturais que exigem conhecimento daquilo que pode ser compreendido como estético. Não se trata só de um ornamento ou de teorias do belo, mas implica algo da expressividade humana.

Praticamente a defesa de Vattimo dá-se pela via do fim da estética filosófica como fim da teoria clássica tradicional da estética. Não é que o estético, nem a experiência estética tenham desaparecido, não é isso. Como admitir toda uma tecnologia da informação? Não se pode mais fazer estética com a mentalidade da tecnologia antes das mudanças mas se pode influí-las. Essa "estética frágil" não é mais a estética que busca fundamentar-se numa qualidade estética de forma metafísica. A tecnologia não pode silenciar essas transformações do mundo moderno. É preciso discutir essas mudanças. 

O "pensamento frágil" que surge em contrapartida ao pensamento forte marcado pela metafísica intensifica a crise da razão diante do empobrecimento da ideia de um saber global capaz de prevalecer sobre as demais manifestações de saberes e visões particulares do mundo. Trata-se de um trabalho que busca desmistificar e desmascarar pretensas verdades irredutíveis. Vattimo, no entanto, alerta-nos para o fato de que esta forma "frágil" de pensamento não enverede a qualquer nova formulação filosófica. O pensamento frágil é um processo inconcluso, inacabado. As bases metodológicas dessa proposta - que soa como uma metáfora - reconsidera e reinterpreta fundamentos tradicionais da história da humanidade e adota uma postura franca e aberta para as novas manifestações culturais emergentes na sociedade atual.  

sábado, 12 de setembro de 2020

A radicalização da filosofia da arte: o distanciamento dos fundamentos da estética. A abertura.

Em Baumgarten a arte não é objeto prioritário. Aqui já se está afirmando que a estética, antes de qualquer coisa, é uma doutrina ou uma teoria da percepção ou uma teoria do conhecimento sensível perfeito. Já pressupomos aqui que estética para Baumgartem não é só filosofia da arte. Ainda que essa distinção entre estética e filosofia da arte não se colocasse ainda na época de Baumgarten no momento em que ele propõe a estética como ciência. 

Nas suas origens históricas a estética é algo muito próximo do que posteriormente ficou a cargo da ciência psicologia, na medida em que se reporta a uma teoria da percepção e, após o idealismo alemão - de Schelling a Hegel -, ela deixa de ser estética (como ciência da percepção) e passa a ser filosofia da arte. O que está sendo apresentado? O que a filosofia da arte vem abstraindo e distanciando de uma concepção do que seja estética? Há uma tensão entre o modelo baumgarteriano e a filosofia da arte. Em uma dada realidade, como a filosofia da arte se torna pobre em responder a uma quantidade de questões? Não se trata de uma questão semântica mas uma questão de método.

Estética para Hegel é filosofia da arte porque tem como objeto o belo artístico. Porque a estética é filosofia da arte? O que é o conceito de belo? O que esse conceito de belo difere de outros conceitos? 

A decisão de que a estética tradicional não responde mais não é uma decisão acadêmica. Aqui se trata de uma crítica cultural, de uma reflexão sobre a cultura que mostra que essa estética não é mais capaz de explicar ou compreender os novos fenômenos artísticos, culturais, sociais etc. É como se dissesse que essa maneira de tratar o estético é insuficiente para lidar com esses novos fenômenos. 

Quem quer saber, hoje em dia, de origem ontológica da arte? Ainda é possível uma disciplina filosófica chamada filosofia da arte?

Não dá pra separar hoje estética, crítica social e filosofia da cultura. Nós estamos fundados em uma sociedade que se desdobra para o sensível através da propaganda vinculada, do modo como as pessoas se vestem e até alguns paradigmas científicos, que muitas vezes estão mais interessados em impressionar ao invés do conhecimento inteligível. A percepção vem praticamente pronta através da propaganda que é o modo de ser dessa sociedade.

Não é uma discussão sobre o estatuto da estética como era em Baumgarten, embora ali se ponha um anúncio dessas questões que envolvem o estético e a gnosiologia inferior. Há objetos que se colocam no real através da cultura e da experiência de um indivíduo, da sua subjetividade mas não mais fechado a um universo puramente fundado na estética como saber específico. A experiência estética vem associada a experiência social e cultural no sentido mais amplo: do perceber e ser percebido que remete a relação entre indivíduo, individualidade, posições do indivíduo, e um dado modo em que essa sociedade faz o indivíduo se sentir presente, para se sentir existindo. 

Existir é ser percebido?

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Estética e filosofia da arte: o distanciamento da tradição de Baumgarter.

Essa relação não era problemática ainda em Baumgarten, que não se põe uma separação entre estética e filosofia da arte. É uma relação que foi construída ao longo da própria tradição estética. Mas como?

Há um texto sobre filosofia da arte de Schelling em que ele comenta e reflete no que chama "doutrina da arte na Alemanha". O que está se preparando no discurso de Schelling até Hegel? Diz Schelling: "Antes de Kant, era uma mera descendência da Estética de Baumgarten, ou se foi ele que usou essa expressão pela primeira vez". O que está em questão é o modo como Baumgarten teria se utilizado do termo "estética". Em Baumgarten, estética está relacionada a um termo grego que remete a questão da sensação (aísthesis).Seria a estética uma forma de psicologia uma vez que se trata de pensar as disposições da faculdade da alma - em uma clara tradição wollfiana? 

Uma vez que Baumgarten buscava refletir sobre as faculdades da subjetividade, ele não vai buscar um fundamento na lógica. Segundo ele, a lógica das escolas era insuficiente para se fazer uma teoria das faculdades relativas a gnosiologia inferior - não uma gnosiologia superior. Ou seja: ele se reporta às faculdades pré-reflexivas. De que modo essa estética ainda se limita a uma psicologia inferior e empírica, na medida em que atrela todas as discussões das belas-artes, e os aspectos relativos a teoria da aísthesis, ao efeito da obra sobre o sujeito, o efeito da obra sobre o indivíduo? Como confrontar-se com essa concepção?

A estética se reduz a uma teoria das faculdades sensíveis ou uma doutrina do conhecimento sensível perfeito? de que modo uma estética dessa natureza pode trabalhar com a essência da arte? Pode-se falar em um fundamento absoluto da filosofia com base numa estética que toma como fundamento uma psicologia? Quais são os limites dessa estética em relação com a questão da verdade da arte? Filosofia da arte seria uma expressão do fundamento absoluto em relação à filosofia?

Não só Kant mas também Schelling buscam distanciar-se da tradição estética baumgarteriana. Compreender de que modo, Kant e Schelling se distanciam do princípio estético de Baumgarten. Na obra "crítica da razão pura" a estética vem reconhecida como algo impossível de se realizar como doutrina ou teoria do gosto mas apenas como uma estética transcendental. A reflexão sobre as condições do conhecimento - uma teoria da sensibilidade da poética (phoesis), no sentido transcendental. É como faltasse para Baumgarten princípios universais para pensar o estético.  

Afinal, estética e filosofia da arte são a mesma coisa? Concebem da mesma maneira? Porque expulsar, num discuso sobre a arte, uma orientação com base na palavra estética? De onde essa palavra decorre? A que este conceito se reporta?

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Sobre Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762) Parte II

 (...)

Para Baumgarten, a forma contém a representação estética do mundo, ou seja, o elo entre beleza e arte configura um mundo que se encontra conceptualizado metafisicamente pelo pensamento filosófico. Belo (schön) significa então, na esteira de Wolff, a faculdade de ser afetado nos sentimentos pelo que é. Dessa maneira, há identidade entre um "belo pensamento" e um "pensamento comovente" (rührend denken: Pope, parágr. 14). Mas Baumgarten estende a "ciência do belo" à "metafísica do belo": o que é representado subjetivamente pelo belo pensamento é o mundo em sua perfeição. Esta última noção implica a composição das partes e do múltiplo em vista de uma harmonia que dá a possibilidade de apreender o mundo como unidade. Ora, essa unidade permite entrever a perfeição divina, e contitui, por conseguinte, "o fundamento e o foco" da perfeição do mundo (Met., parágr. 533). O pensamento, na coerência de suas ideias expressas, é também sustentado pelo princípio da perfeição, e segue-se que a beleza, que é a perfeição do conhecimento sensível e sensitivo, representa a perfeição do mundo. Donde resulta a definição de beleza estética: perfectio phaenomenon s. gustui latius dicto observabilis est pulcritudo (Met., parag. 521). A criação artística refere-se então à natureza, pois o artista produz a perfeição e a unidade do mundo.

Embora Baumgarten marque a guinada rumo à subjetividade na estética, esta continua fundamentada sistematicamente pela relação com a filosofia e com o conceito de mundo nesta. Assim, a estética mantém os laços com o logos filosófico que guia a arte por meio de sua conceptualização mais elevada. Por analogia com a lógica, a estética é um ars analogi rationis (Aest., parág. 1). Isso não significa uma retomada das regras técnicas clássicas da tradição retórica, mas trata-se de regras deduzidas da razão estética em geral, a fim de ajudar o espírito a não "se embrutecer" (verrauhen: Poppe, parág. 62).

Ainda que graças a Baumgarten a estética se tenha transformado numa disciplina positiva e autônoma, é preciso lembrar que a constatação da pluralidade dos valores ou categorias estéticas depois veio a derrubar sua concepção de "Ciência do Belo". A diferença entre o sublime e o belo em Kantm bem como as pequisas sobre a dependência socio-histórica dos "juízos do gosto" mudaram consideravelmente os quadros metodológicos elaborados pelos séculos XVIII e XIX. O objeto da estética não aparece mais como uma "produção voluntária do belo", como acredita Baumgarten, mas reside no próprio fato artístico, que recorre a todas as espécies de disciplinas particulares: história da arte, psicologia, tecnologia etc. O legado de Baumgarten prolonga-se, porém, na observação morfológica, que é ao mesmo tempo um estudo da forma estética propriamente dita e uma nomotética da natureza. Apesar dessa confusão, a análise das formas constitui um método heurístico promissor, em que se desenha uma síntese de diversas disciplinas em relação com uma semiologia geral que foi entrevista também por Baumgarten. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Sobre Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762) Parte I

Texto extraído da obra "Dicionário dos Filósofos" de Denis Huisman.


Filósofo alemão nascido em Berlim em 1714 e falecido em Frankfurt/Oder em 1762. Foi aluno de Ch. Wolff e fundador da estética na Alemanha (Aesthetica, 2 vol., 1750-1758). Kant utilizou os escritos éticos e metafísicos de Baumgarten como leitura obrigatória em seus cursos.

Em 1735, em Meditationes philosophicae de nonnullis ad poema pertinentibus, Baumgarten reclama a elaboração de uma nova disciplina, a estética. E em 1742, dá em Frankfurt/Oder, pela primeira vez na história da filosofia, um curso de estética que constitui a base da obra Aesthetica, que ficou inacabada. Foi graças às publicações mais acessíveis de G.F. Meier (Anfangsgründe aller schönen Wissenchaften, I-III, 1748-1750) que a teoria de Baumgarten pôde exercer influência efetiva mais ampla. Com Baumgarten, a filosofia, que se define então como ciência racional baseada em noções claras e distintas, toma consciência de uma nova região do conhecer que possui exigências próprias em termos de verdade, na forma de poesia e de outras artes. Tudo o que propicia ao poeta e ao artista em geral - enquanto ingenium venustum et elegans connatum ou felix aestheticus (Aesth., parag. 27.29) - a dádiva do "belo pensamento" (schönes Denken) pertence ao domínio da subjetividade e à formação das belas-artes a partir dela. O ingenium integra a proporção, a criação arquetípica, a emotividade, o juízo de gosto, a imaginação, a lucidez, a memótia, um pensamento sublime, a grandeza do coração e a consciência, assim como o entusiasmo (Aesth. parags. 28-46).

A disciplina estética filosófica como tal tem a tarefa de conciliar verdade filosófica com verdade artística, introduzindo a sensação e o sentimento na reflexão para que esta seja ampliada. A estética, portanto, completa a lógica, como deve dirigir a faculdade do conhecer, enquanto gnosiologia inferior, ou seja, ela é a ciência da sensibilidade (sinnlichenErkenntnis: Med., parag. 4; Aesth., parags. 113, 533). A lógica perde então seu monopólio, sendo reduzida por Baumgarten à inteligência (Verstand), numa conotação mais restrita. Em certa medida, o espírito se divide em duas dimensões: "horizonte lógico" e "horizonte estético", com seus direitos próprios (Aesth., 119). Em ICartas Filosóficas, 7, Baumgarten projeta uma "empírica estética" citando Bacon e Boyle, para nela tratar das "armas dos sentidos", a saber, instrumentos ópticos, térmicos etc. E ao lado da astrologia, da fisiognomonia, da emblemática etc., a obra Sciagraphia, póstuma, esboça o conjunto de uma scientia signorum e characteristica semiologica (parag. 25)

No entanto, não foi tanto essa gnosiologia das faculdades inferiores do conhecer que se impôs como teoria, porém mais o felix aestheticus. Pois a abstração da filosofia continua sem elo concreto com o homem e a natureza que o cerca, ao passo que a estética vivifica todo o homem e prepara os caminhos para a verdade, a fim de que ela possa voltar para a alma. Com esse objetivo, Baumgarten procura estabelecer os "bons princípios" para as belas-artes, subtraindo-os às multidão de opiniões contrárias (Aesth., parag. 75). Com a estética, o sujeito entra numa relação sensível com o mundo que se diferencia conscientemente da natureza objetiva concebida a partir da revolução copernicana. A subjetividade torna-se então, por meio do sentimento representado, o fundamento da presença estética de uma natureza que é desconhecida de outro modo. 

(...)

continua e finaliza na parte II.


terça-feira, 8 de setembro de 2020

A experiência estética como rompimento de um paradigma: um exame rigoroso das relações sociais.

 A época é outra, mas a filosofia é a mesma.


Três perguntas: i) É possível pensar ainda a estética tradicional?

                          ii) O que significa experiência estética no presente?

                          iii) Qual a relação entre pensamento frágil e Estética?


Pensar o fundamento é uma exigência ainda da busca pelo saber tradicional. Isso caracteriza o discurso da Estética clássica. São essas estéticas clássicas que estão sendo questionadas nesse outro discurso. O exame das relações sociais constata a precariedade da vida produzida em relação a determinados rumos tomados pela civilização tecnológica ocidental. Hoje esse discurso pode se configurar como um discurso estético, não como um discurso sobre o belo, afinal, como falar de belo depois da experiência da II guerra mundial e os campos de concentração nazistas, da guerra civil urbana dos últimos tempos? 

Se a experiência estética é uma experiência autonoma e absoluta, o que ocorre dessa experiência? Há a perda desse caráter absoluto e a autonomia da experiência estética. Não há mais como se falar de uma experiência estética desvinculada dessas demais experiências - um fenômeno que quebra toda a noção de racionalidade.

Como dar sustentação ao conceito de faculdades pré-reflexivas como constituidoras de sentido?

A experiência humana, em geral, apresenta uma experiência da verdade. Não há apenas uma verdade concebida metodologicamente pelo saber empírico e o saber científico - apesar dele ser considerado. A estética pode não tender a reproduzir esse modelo para pensar a experiência estética. O que caracterizaria essa irredutível autonomia da experiência estética?

A experiência estética não está mais limitada aos críticos de arte, nem aos problemas relativos à arte, mas estará se posicionando como algo que resiste as influências da indústria cultural. Ela se põe como possibilidade crítica dos objetos, ou da cultura produzida pela tecnologia da indústria cultural.

De que modo a experiência estética é capaz de compreender aspectos da vida imediata da nossa existência, que seriam alheios aos grandes sistemas filosóficos e certas teorias estéticas? Nesse contexto, a outra experiência estética busca se introduzir num universo que seria inacessível a uma reflexão racional. Uma macro-dialética ou dialética da totalidade poderia não identificar aquilo que se esconde no tecido social e que se perderia de vista em razão de uma dada concepção de racionalidade.

Como se torna acessível na experiência estética pontos da existência humana perdidos por um discurso filosófico, ou por um modelo de teoria em que esses sintomas tornam-se inacessíveis?