quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Sobre Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762) Parte II

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Para Baumgarten, a forma contém a representação estética do mundo, ou seja, o elo entre beleza e arte configura um mundo que se encontra conceptualizado metafisicamente pelo pensamento filosófico. Belo (schön) significa então, na esteira de Wolff, a faculdade de ser afetado nos sentimentos pelo que é. Dessa maneira, há identidade entre um "belo pensamento" e um "pensamento comovente" (rührend denken: Pope, parágr. 14). Mas Baumgarten estende a "ciência do belo" à "metafísica do belo": o que é representado subjetivamente pelo belo pensamento é o mundo em sua perfeição. Esta última noção implica a composição das partes e do múltiplo em vista de uma harmonia que dá a possibilidade de apreender o mundo como unidade. Ora, essa unidade permite entrever a perfeição divina, e contitui, por conseguinte, "o fundamento e o foco" da perfeição do mundo (Met., parágr. 533). O pensamento, na coerência de suas ideias expressas, é também sustentado pelo princípio da perfeição, e segue-se que a beleza, que é a perfeição do conhecimento sensível e sensitivo, representa a perfeição do mundo. Donde resulta a definição de beleza estética: perfectio phaenomenon s. gustui latius dicto observabilis est pulcritudo (Met., parag. 521). A criação artística refere-se então à natureza, pois o artista produz a perfeição e a unidade do mundo.

Embora Baumgarten marque a guinada rumo à subjetividade na estética, esta continua fundamentada sistematicamente pela relação com a filosofia e com o conceito de mundo nesta. Assim, a estética mantém os laços com o logos filosófico que guia a arte por meio de sua conceptualização mais elevada. Por analogia com a lógica, a estética é um ars analogi rationis (Aest., parág. 1). Isso não significa uma retomada das regras técnicas clássicas da tradição retórica, mas trata-se de regras deduzidas da razão estética em geral, a fim de ajudar o espírito a não "se embrutecer" (verrauhen: Poppe, parág. 62).

Ainda que graças a Baumgarten a estética se tenha transformado numa disciplina positiva e autônoma, é preciso lembrar que a constatação da pluralidade dos valores ou categorias estéticas depois veio a derrubar sua concepção de "Ciência do Belo". A diferença entre o sublime e o belo em Kantm bem como as pequisas sobre a dependência socio-histórica dos "juízos do gosto" mudaram consideravelmente os quadros metodológicos elaborados pelos séculos XVIII e XIX. O objeto da estética não aparece mais como uma "produção voluntária do belo", como acredita Baumgarten, mas reside no próprio fato artístico, que recorre a todas as espécies de disciplinas particulares: história da arte, psicologia, tecnologia etc. O legado de Baumgarten prolonga-se, porém, na observação morfológica, que é ao mesmo tempo um estudo da forma estética propriamente dita e uma nomotética da natureza. Apesar dessa confusão, a análise das formas constitui um método heurístico promissor, em que se desenha uma síntese de diversas disciplinas em relação com uma semiologia geral que foi entrevista também por Baumgarten. 

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