Farei agora uma excursão sobre a estética do século XVIII. Utilizarei como base teórica dos argumentos aqui expostos a obra de mesmo título do pensador italiano Elio Franzini. Pretender deliear o desenvolvimento essencial da estética do século XVIII é mostrar que os processos clássicos, tanto de análise como de síntese, são ambos inadequados e necessários. É explicitar um paradoxo - ou paradigma? - num contexto em que muitos autores se perdem na infinidade de suas análises, e em consonância com o próprio espírito do século XVIII - numa época em que o indivíduo detém um papel central - iniciamos este percurso.
Para sair da dificuldade e sem tentar buscar uma síntese facilitada e inadequada, lembremo-nos da fórmula leibniziana com que o conceito de "beleza", "(...) isto é, a unidade na variedade, pode ser utilizada precisamente para compreender a duplicidade dos seus percursos teóricos, estabelecendo aqui a fundação da estética, que só neste século define tanto o próprio nome (cunhado por Baumgarten em 1735) como os seus horizontes temáticos".
No plano da filosofia, é preciso considerar uma rede comunicativa, um excepcional intercâmbio entre os homens europeus para disputas de pensamento. "Assim, por exemplo, na Itália, dominam as tradições poético-retóricas, na Alemanha prevalece uma instância cognoscitiva radicada em Leibniz, na Inglaterra platonismo e empirismo combatem entre si, em França os antigos e os modernos levam a cabo uma disputa bem mais violenta do que nos outros países europeus".
"Ao expormos os problemas essenciais que surgem neste horizonte, será preciso evitar o recurso perverso a 'antecipações', que muitas vezes insere histórias e teorias em (demasiado) fáceis e banalizadores finalismos. No entanto, sem que isso nos torne perversos, é impossível deixar de sublinhar que o século xviii - precisamente enquanto mostra o nascimento e os primeiros desenvolvimentos da estética moderna, as suas incertezas originais entre a doutrina da sensibilidade e da receptividade do gosto - abre numerosos problemas quer de identidade quer de definição categorial e conceptual, com que ainda hoje se debate a estética filosófica". É preciso conviver: rigor filosófico e perspectivas retóricas, questões antropológicas e poéticas artísticas. A síntese nunca podera ser imediata nem apriorística.
Alguns pensadores sugerem na identificação da estética deste século um "iluminismo fanático", vendo nela um triunfo acrítico da razão. "A estética demonstra, pelo contrário, precisamente a complexidade do período: a par da razão (que, aliás, domina de modo bem mais relevante no século anterior) temos a obscuridade e a ambiguidade da sensação, a indiscrição das paixões e o espectro do excesso, em todo o caso, o olhar sobre uma natureza que recusa um único rosto, uma única expressão, um único método. Com isso não se pretende afirmar que o século xviii, mesmo na estética, não conhece a razão como instância metodológica e ordenadora - pelo contrário, ela vive em numerosas tradições, radicadas em Descartes, Melebranche, Leibniz ou Locke. Mas esta razão nunca instaura um domínio absoluto; ela é penetrada de um arguto wit e sabe que tem de conviver com uma natureza que tem aspectos selvagens, animais, obscuros - excedentes e indiscretos, potencialmente perigosos para a sociedade e a vida individual, e só autenticamente controláveis a partir da compreensão de seus fios essenciais, de suas particularidades funcionais, dos limites que se impõem ao negativo, à paixão, à força por vezes explosiva do eros. Compreender a estética do século xviii significa também penetrar nas 'razões' das suas múltiplas manifestações, que enfrentam de modo dinâmico as diferentes expressões da natureza e da razão, da sensibilidade e do intelecto".
"A estética deste século não tem, portanto, uma definição unívoca, nem um pai reconhecido, nem uma mítica mãe geradora: está aqui presente a crítica do gosto, o horizonte poético das artes, a estrutura gnosiológica de Baumgarten, a fantasia de Vico, a lúcida visão transcendental de Kant, bem como as reflexões particulares dos artistas, dos críticos, dos místicos ou dos poetas. A estética é o senso comum deste diálogo dinâmico e incessante: é nele que se verão em acção as questões do sentimento, do prazer, da beleza, da forma, do infinito, que se poderão captar as qualidades das artes, os limites da percepção, o temor perante a obscura grandeza da natureza, as interrogações sobre o amor e a vida. A viagem entre 'regularidade' e 'irregularidade', que no século xviii se realiza entre as metafísicas da beleza e as relatividades do gosto, mostrará, nos planos da filosofia e da arte, as oscilações entre razão e paixão".
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